O sonho imperfeito
No rádio o locutor falava dos raios e da chuva que alagava tudo, vários carros danificados e pessoas feridas num dia imprevisível.
Aquela metáfora que reflete a realidade na cidade.
O tempo e as imperfeições no avanço desmedido da sociedade contemporânea, conectado com fios que se emaranham nos postes de luz, fios cortados, fios arrancados, milhares de fios de redes intermináveis. A sujeira dos fios e da modernidade. Tecnologia do excesso de fios que poluem a nossa visão do céu, a paisagem corrompida e a virtualização do meio urbano através do exagero de fios.
Energia que destrói e constrói as nossas expectativas, as faíscas nos fios elétricos e novos sentidos que expõem as desgraças do desenvolvimento. A insustentável verdade que se revela nos escombros, o movimento de encontrar um polo da verdade no registro do caos e reorganizar esse dado no discurso.
Humanos imperfeitos sonhando com a perfeição e construindo pontes nas ilhas da inconsciência, isso deveria gerar eloquência ou apenas uma sentença. Humanos e fios que transmitem a informação de forma fragmentada, pedaços da realidade visível na lupa dos pensamentos abstratos. Fatias de uma realidade que deveria satisfazer a platéia e conter o sentimento de incapacidade diante do insuportável sonho de atingir a perfeição.
Acordei pensando no passado, é uma sensação recorrente, não levantar e remexer nessa cama familiar, as horas passam e nada importa de fato, o tempo não vai retroceder e a única opção é levantar e lavar o rosto, escovar os dentes para em seguida tomar um café fumegante e imaginar uma solução entre os apagões. Imaginar a realidade que transmita serenidade, imaginar alegorias que encantam os sentidos. Reviver numa alegoria do que é perfeição.
Escrever é a melhor parte, viver a vida é a pior parte, equilibrar as frustrações e o medo das crises cotidianas é a causa da ansiedade. Sabemos o conceito e as conexões, o que não sabemos torna esse cálculo difuso, números que somem num limbo de códigos desconhecido. Números sem contexto e sem solução numa álgebra que gera o Caos.
Qual a soma desse sonho imperfeito?
A chuva transforma a realidade e mostra a debilidade humana, não é sobre a chuva, é sobre o que nunca foi feito para equilibrar a soma. Isso não deveria ser sobre a matemática da vida nem sobre questões sem resultados óbvios, deveria ser sobre responsabilidade e segurança nos dias de tempestade. Deveria ser mais do que uma fórmula mágica do dia a dia, deveria ser algo que tivesse a potência de trazer coesão.
Sonhamos com um outro planeta, habitar marte ou viajar para um mundo mais avançado, enquanto na Terra a desigualdade é notória, sonhar com um mundo e viver nesse sem querer aceitar as chamas da realidade é querer viver numa fantasia paradisíaca.
A solução não remove as nossas expectativas, essa esperança que só existe num sonho, essa filosofia barata, essa ilusão doentia, essa sonora imperfeição humana.
Qual a razão de existir tanta loucura nesse mundo?
A suspeita permanece no pensamento, é delicado demais tocar nesse ninho. Não é possível prever a reação ou criar um método de autodefesa da Loucura, quem diz que nunca vai enlouquecer está mentindo para si mesmo. Enlouquecer é simplesmente imprevisível. O ato de estar vivo te garante a possibilidade de entrar no grupo dos loucos, a insanidade é cruel, não escolhe com a lógica.
A realidade da loucura não é linear! Provavelmente nenhuma realidade é linear, realmente é interessante observar que nada nesse mundo segue na linearidade, existe uma falsa certeza sobre o que de fato pode ser linear na mente humana.
Quem cria a figura da linearidade na fictícia realidade é a pessoa que transita no mundo criado pelos sonhos, ou é a premissa da ficção que gera a intenção de viver numa fantasia linear, era sobre o rádio ou sobre a chuva, era sobre o clima que destrói a vida humana e talvez fosse sobre um pesadelo linear.
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