Essa alegoria da perfeição
Entre as pequenas incertezas, navegando no barulho dos pensamentos incessantes e registrando fotografias sem cor para enfatizar a dor, não se pode desejar um sonho estilo filme antigo, aquelas legendas no silêncio do cinema mudo, tudo que é antigo gera nostalgia exagerada, é uma grande alegoria da insatisfação.
Essa alegoria da perfeição tão cult, tão vintage, tão cool, tão frustrante e bela, as pegadas da tecnologia parecem uma invenção mal feita do que já foi bonito. Excesso de nitidez e um som realmente de última geração, palavras lixadas num contraste do consumo, vício que gera lucro.
Adoração por falsas pessoas numa beleza cirúrgica, o flerte mortal com a sombra que se delicia nas pílulas e festas. Balas e tiros numa sala de luzes ofuscantes, cores psicodélicas numa lente cara, todos os holofotes mirando na cabeça da celebridade. Mentiras e bebidas amargas que esquentam o estômago vazio da moda, tudo gera moda e a indústria vai matar a originalidade sem piedade, é o que dita as normas celestiais do nosso meio, exceto que estou na sarjeta, andando entre as baratas tontas, o esgoto na frente dos olhos.
Resta a perfeição para a fantasia, então a perfeição abandona o carro e entra num avião em direção ao céu. Estive no carro em alta velocidade indo numa direção contrária, bati numa ponte e o carro caiu numa correnteza de rio, sem freios, sem direção, sem carteira de habilitação, só essa água entrando pelas frestas e afundando mais o veículo.
O fundo é a certeza. Submergir é arte.
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