Fevereiro grita

 Sempre parece um início, quando deveria ser o processo já em andamento, o Brasil exalta o mês do Carnaval, aqui, na cidade das Bacabas, dia 4 de fevereiro revela a idade dessa Senhora: Macapá, mais de 200 anos, para ser exata, 268 anos, um lugar tão complexo, rodeado de rio, uma fortaleza de São José, um povo que espera sempre por novas oportunidades.

Fevereiro grita as marchinhas carnavalescas, dança na rua, exalta o que parece um festejo sem fim, alegria e a carne mais barata do mercado pula e sorri. Fevereiro sempre foi o mês que eu tentei ignorar ao longo da vida, ignorância parece uma salvação, é só aparência, no mundo a política de circo e pouco pão é cultural, não tinha como ser diferente na cidade das Bacabeiras, não seria possível nesse cenário apocalíptico que a política brasileira vive, a aparência da normalidade é audaciosa e tragicômica.

Eu poderia falar diversas coisas lindas sobre o aniversário de Macapá, mas, seria uma mentira deslavada, seria um conto de fadinhas que para crianças faz a leitura divertida e carismática. Convenhamos, nasci nessa bela cidade, cresci entre as lacunas, a grande depressão, ansiedade cortante, o desejo de escrever, a certeza de fracassar por não adular nem ter máscaras melhores, uma vida isolada também pode ser o melhor remédio para entender a realidade do lugar onde se vive. Não adianta pintar vários arco-íris nas paredes se a vida da grande maioria continuar cinza.

A chuva alaga tudo, mas, temos novas construções grandiosas, a chuva vai continuar alagando o centro da cidade maravilhosa das Bacabas. Famílias antigas são elite e mandam e desmandam, como senhores de engenho nos feudos da antiguidade, a educação visível para os grandes nomes, a fome e esquecimento para aqueles que sonham com uma nova história.

Mulheres continuam morrendo, uma miss leva um tiro do ex marido jurandir, nas fotos essa moça exalava beleza e um sorriso reluzente, talvez Macapá seja como essa moça que sofre as consequências da ganância por um amor que já não existe. E os seus sinais preenchendo o quadro com o sangue dos que tentarem sair do relacionamento abusivo. Fevereiro grita também pelas mortes de janeiro e vai continuar bebendo e dançando nesse aniversário de 268 anos da cidade do rio mais belo, da linha do Equador, dos açaizeiros e dos inocentes que vivem isolados.

Viva Macapá! Viva pela revolução de ser livre.

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