Observações da Realidade

 Escrito em 29 de março de 2025.

Se eu pudesse voltar no tempo gostaria de voltar ao momento em que o espermatozóide estava ali correndo pra alcançar o óvulo e simplesmente dizer: não corre, deixa os outros irem. Fica quieto aí, infeliz.

Talvez assim outro ser viesse, quem sabe.

Qualquer outro, menos eu, costumo pensar no momento do último suspiro desde criança, sobre nunca mais reencarnar aqui ou em qualquer outro lugar, simplesmente nunca mais nascer. O alívio final, o sono eterno, um sopro para fora de um corpo e as limitações humanas.

Eu assisti muita ficção científica e li tanto sobre extraterrestres que hoje qualquer explosão parece inebriante, aquela piada do meteoro nunca foi piada. 

Se tudo explodir a paz é real. 
Paz profunda.

Quando vejo pessoas falando de forma tão empolgada sobre a vida, costumo respirar fundo e tentar não transparecer o fato que acho deprimente acordar e tentar manter a sanidade mental o mínimo possível.

Me questiono se eu já nasci com o cérebro defeituoso ou se isso ocorreu ao longo dos anos, uma doença fatal que mata sinapses neurais a cada pico de ansiedade, cada ataque de pânico, cada crise depressiva silenciosa.

Um filme em preto e branco com imagem desfocada, aquelas breves certezas sobre a nulidade e quiçá a obsessão por esquecer dos diálogos, das vozes, das alucinações, as paranóias.

Crescer e envelhecer de forma precoce também prejudica a lucidez, uma alucinante imaginação reversa, fico escutando o barulho dentro dessa cabeça aquosa e frágil. 

Esquecer é um privilégio.

(Era sobre as Observações da Realidade, não era sobre desabafar para um caderno antigo, era sobre os pensamentos intrusivos de cada dia, o café amargo e aquele desejo oculto de nunca sair da placenta, não ter que encarar a realidade da vida).

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