Lucille encontra Laiola

 Era um tipo de cais, vários barcos chegando e partindo como as ondas do Rio Amazonas, ao longe aquelas balsas estrangeiras imensas, o rio agressivo, chuva fortíssima e raios que iluminavam a escuridão daquela orla assombrosa. Uma embarcação magnífica atraca num lugar ermo no meio do rio, talvez por ser tão grande, temerosa de não chegar na margem, a tripulação resolve jogar a âncora ali.

Dentro do grandioso barco, não, melhor dizer, Navio, aquilo não poderia ser um barquinho mixuruca, era em toda grandeza um colossal primo do Titanic, velas imensas, soturnas e belas. O capitão gritava e a chuva aumentava, os demais corriam pela extensão do Navio gigante, escorregando, derrapando e xingando alguém invisível, trovões ecoavam enquanto o trabalho naquele cenário era o puro suco do Caos.

No porão, esquecido e ainda mais grandioso estava um enorme baú de mogno todo lapidado com motivos da realeza espanhola. Para o capitão foi entregue uma carta com regras sobre nunca abrir aquele "tesouro", e quando chegassem nas Terras de Andaluzia no extremo Norte, só então desembarcar aquele baú enorme e deixar no cais, era certo que um nobre iria buscá-lo e enviar para a Mansão de uma das famílias mais ricas do lugar.

As duras penas os pobres diabos, malfadados tripulantes do Navio Sforza conseguiram vir para o cais nos botes e com um esforço extenuante trouxeram o misterioso baú, já exaustos, encharcados e tremendo de frio e fome descarregaram ali na parte mais iluminada da orla e foram rumo a alguma taberna para encontrar alimentos e calor humano, a vila parecia vazia, escuridão, os barulhos traiçoeiros na densa Floresta.

Deixaram todas as tralhas e caixas esquecidas, o breu da noite cada vez mais denso, Lua minguante num céu medonho. Algo mexeu nas árvores e logo parou em frente ao "tesouro espanhol", uma criatura esguia, longos cabelos louros esvoaçando, com apenas uma mão e garras afiadas quebrou os cadeados e levantou a tampa de mogno, uma figura extremamente pálida e ricamente vestida estava adormecida como uma ninfa num conto para entreter as crianças, que beleza celestial, os enormes cabelos negros com ondas perfeitas, certamente uma princesa vinda diretamente da Espanha, - seria melhor dizer: das profundezas do Submundo.

"Lucille"

Sussurra a figura de cabelos louros para a Ninfa adormecida.

"É hora de acordar, Lucille".

(...)

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