Escrever até Morrer

 Confesso, não sei como funciona na mente de outros escritores, sinceramente, não costumo imaginar os pormenores e as loucuras que cada escritor ocultou durante os anos, a maioria dos leitores costuma ter curiosidade sobre a Literatura e os livros que foram publicados, poucos são os curiosos que querem adentrar os portões da psique humana no âmago.

Aquela busca pelos segredos mais sombrios.

Lembro daquela menina, lembro do desejo que nunca se perdeu, ficou congelado, talvez, mas, estava ali, era uma carta meio queimada, guardada no baú dos tesouros. O desejo era simples: "Vou escrever até o último segundo, o último suspiro e adeus, sei que o resto é silêncio, segundo aquele filósofo, mas, pelo menos o meu resto é letra, é verso, é um conto sobre a realidade da vida".

Nunca quis a alcunha de poetisa, escrevi muita poesia e queria ser a escritora dos contos de terror psicológico, ou, daquele grande volume de livros que contavam a trajetória de "Além da Realidade", sei a resposta do porque não publiquei meu primeiro livro solo na juventude, não era só a falta de dinheiro, era o medo de não escrever nada melhor do que os versos.

Escrever é tão difícil, parece fácil quando vemos a obra pronta e impressa, mas, os dias e horas e as noites de insônia, a raiva da própria falta de imaginação, o bloqueio e o colapso mental de ser apenas medíocre. Querer tanto escrever algo que eternize essa intenção e morrer com um nome que brilhe numa lápide, um nome é um tipo de feitiço, magia do verso e do verbo.

Ser a escritora e o livro, ser mais do que uma vírgula num mundo perdido. Eu sempre quis escrever até morrer, mas, no tempo que fiquei no silêncio da autoflagelação, foi quando ouvi as Vozes de seres que entendiam o desespero de ser só uma pessoa quebrada num cômodo esquecido, o escritor sente medo de nunca ser lido, é terrível. Qual o sentido de escrever o que nunca vai ser lido? Qual o sentido de permanecer numa cova tão escura se você ainda está vivo?

Os pensamentos intrusivos destroem com facilidade a racionalidade, é corrosivo. A ferrugem, o lodo, a memória perdida, o desejo que nunca foi dito. Só um eco quase esquecido na garganta, o choro de cada amanhecer, o choro visceral de ser apenas medíocre. Era o desejo de ser melhor que as bactérias, ser mais que um verso curto sobre medo e morte, eu queria ser um conto distópico e hiper-realista sobre a celebração da vida.

Escrever até morrer, e após morrer, continuar a escrever, não existe uma conclusão, existe o desejo e a reverberação dessa intenção.

Comentários

Postagens mais visitadas