A depressão severa

 Entre as aspas e as reticências nada poéticas dos meus dias, eu escolho consciente as palavras que não devo escrever.

Eu não costumo poupar por cautela, muitas vezes solto frases afiadas, não são literalmente facas, imagino que sejam agulhas, eu coleciono agulhas de tricô, de crochê, de bordado, agulhas comuns de costura, coleciono as agulhas enferrujadas nos potes antigos que minha mãe esquece pela casa, desde criança eu guardo agulhas que encontro pelo chão da casa-museu-das-máquinas de costura. Encontrar agulhas é o meu cotidiano desde a criança pequenininha até a jovem-idosa com depressão severa, colecionar agulhas não é um hobby que escolhi para passar meu tempo.

Acredito que as agulhas escolhem, você pode pensar que elas não tem o poder de pensar, pode dizer pra si mesmo que são apenas objetos sem vida, não tem problema nenhum em julgar por sua ótica comum, o natural é esse julgamento linear. Mas, as agulhas escolhem, as facas escolhem também, as sementes escolhem, tudo no mundo tem intenção e vida, nada é só um objeto sem importância. Agulhas sabem escolher com mais sabedoria e precisão que tolos humanos sem noção.

Vamos voltar ao título antes que a minha cabeça esqueça do fio que deveria laçar, não é uma simples metáfora dessa vez, a depressão devora os meus melhores pensamentos, não é algo atual, não é algo acidental, a gravidade aumenta com os anos, não se trata também de uma simples perturbação mental, estou viva porque a Lucidez me presenteia com agulhas. Os fios eu compro para manter uma pequena certeza no coração, talvez o meu único hobby seja manter canetas perto dos olhos e das mãos, é um afago, não precisa de muita explicação.

O gosto do sangue quente quando a agulha afiada fura o dedo indicador e no automático levo a boca para amenizar a dor, isso não se compara ao desejo de bater a cabeça numa parede de concreto e por felicidade aliviar a dor insuportável que pulsa forte na fronte. 

"Prometi que não escreveria sobre a depressão, falhei miseravelmente".

Essa voz que gosta de jogar comigo aqui dentro do cérebro defeituoso se alegra sempre que observa o meu corpo jogado no chão se revirando e sem conseguir levantar, é terrível visualizar a cara que a Depressão revela nesses surtos, não é um monstro demoníaco horrendo, é só o rosto da menina de 4 anos num choro desesperado, essa menina não vai morrer, infelizmente ela cresce e não sabe como remover as agulhas cravadas no corpo infantil.

Na memória fragmentada ela consegue ver que não são agulhas, são enormes espinhos da árvore do tucumã, ela lembra um cadinho que caiu entre os troncos numa enorme vala de espinhos, a lembrança trás de volta a dor, o medo, a raiva daquele pequeno ser que foi emburrado por outra criança numa armadilha terrível. Crianças podem ser cruéis. E crianças podem ser machucadas tão cedo, a infância é também uma arena sinistra.

Não quero voltar no tempo, o esquecimento parece uma bebida gelada que alivia e trás um conforto breve. Todas as memórias daquela menina deveriam continuar guardadas no fundo do rio, quem trás esses espinhos de volta só causa mais feridas na carne daquela menina infeliz, sempre que olho para o espelho eu vejo a sombra, a menina e a jovem idosa. Ver três e uma não gera alegria, só gera a certeza que cada agulha guardada nas bolsas tem a sua intenção.

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