A Deusa da REALIDADE
Kali, a Mãe que Existe Antes dos Deuses.
Há uma imagem que o Ocidente jamais conseguiu compreender completamente.
A mulher negra como a noite sem estrelas. Descalça.
Os cabelos livres como tempestades.
Um colar de cabeças em torno do pescoço.
A língua exposta.
Os pés apoiados sobre o corpo de Shiva.
Durante séculos, olharam para ela e disseram:
"É a deusa da destruição."
Mas os antigos sábios da Índia talvez respondessem com um sorriso.
Destruição?
Não.
Transformação.
Kali não destrói o universo.
Ela é aquilo que torna toda mudança inevitável. A fruta precisa abandonar a flor.
O adulto precisa abandonar a criança.
O dia precisa abandonar a madrugada.
Tudo o que existe carrega dentro de si uma despedida.
E Kali habita exatamente esse instante.
Seu nome está ligado ao tempo.
Não ao relógio dos homens, mas ao tempo que consome impérios, apaga nomes e transforma montanhas em areia.
Os reis acreditam possuir o mundo.
Kali observa.
Os conquistadores acreditam possuir a história.
Kali observa.
Os deuses acreditam possuir a eternidade.
Kali observa.
Porque até os deuses passam.
O tempo permanece.
Talvez seja por isso que sua pele seja negra.
Não porque represente trevas.
Mas porque representa aquilo que contém todas as coisas.
Os antigos mestres tântricos enxergavam uma verdade profunda no negro.
O espaço entre as estrelas é negro.
O útero materno é escuro.
A noite primordial anterior à criação é negra.
Antes que a primeira luz surgisse, existia apenas o mistério.
E esse mistério possui o rosto de Kali.
Existe ainda outro segredo.
Seu colar de cabeças raramente significou aquilo que muitos imaginam.
Em algumas tradições do Tantra, cada cabeça representa uma letra do alfabeto sânscrito.
Cada som.
Cada palavra.
Cada poema.
Cada oração.
Cada nome pronunciado desde o nascimento do mundo.
O universo inteiro seria uma linguagem.
Uma imensa frase cósmica sendo pronunciada pela própria realidade e Kali usa essas letras porque ela não habita a criação.
A criação habita nela.
Até mesmo sua língua exposta esconde um significado esquecido.
Para muitos devotos de Bengala, ela não expressa fome de sangue.
Expressa espanto.
O instante em que o poder absoluto reconhece seus próprios limites.
O instante em que a consciência desperta para si mesma, por isso os grandes místicos da Índia não costumavam temê-la.
Eles a chamavam simplesmente de Mãe.
Não rainha.
Não senhora da morte.
Não destruidora dos mundos.
Apenas Mãe.
Quando tudo desaparece, uma pergunta permanece.
Quando o corpo desaparece.
Quando os títulos desaparecem.
Quando a juventude desaparece.
Quando os aplausos desaparecem.
Quem continua existindo?
Talvez Kali seja essa pergunta vestida de deusa.
Talvez seja por isso que sua imagem continua atravessando os séculos.
Ela não nos recorda da morte.
Ela nos recorda do que existe antes do nascimento e permanece depois do fim. E diante dessa presença antiga, silenciosa e infinita, até mesmo os deuses se tornam passageiros.
Fontes e referências históricas:
As interpretações apresentadas no texto foram inspiradas por tradições e estudos ligados ao culto de Kali, especialmente:
Ramakrishna — relatos de sua devoção a Kali Maa.
Mahanirvana Tantra.
Karpuradi Stotra.
Devi Mahatmya.
Sir John Woodroffe.
David Kinsley, autor de Hindu Goddesses.
Elizabeth U. Harding, autora de Kali: The Black Goddess of Dakshineswar.
Nota ao leitor: algumas interpretações simbólicas (como o colar de cabeças relacionado às letras do sânscrito) pertencem a correntes tântricas específicas e podem variar entre diferentes escolas do hinduísmo. O texto acima é uma prosa filosófica baseada em tradições reais, não uma tradução literal de um único texto sagrado.
Comentários
Postar um comentário