Insônia Literal

 O literal é uma constante, ser literal não é legal.

São muitos anos de insônia, dessa vez não vou criar uma narrativa delicada, a cabeça lateja e os olhos ardem por madrugadas e nunca sei definir se gosto de dormir ao amanhecer por conta da agitação noturna ou apenas tive o infortúnio de nascer com esse cérebro contrário a norma naturalizada na cultura do padrão de vida, odeio a insônia, não existe romantismo em viver com olheiras profundas.

Quero flutuar nos textos sobre Cultura e Ancestralidade, não quero reclamar da falta de saúde mental, ter fome de vida e arte causa também indigestão nos dias de terror pela necessidade de sobreviver aos boletos. 

O desejo de escrever sobre a prosa da realidade nunca se compara ao viver a crueza do desgaste, a pobreza residual. 

"Não sei se a fome é somente da cor amarela! Só sei que a depressão tem todos os tons de cinza."

Essa necessidade de viver alguma alegria que seja, o sangue que quer fervilhar nas veias, a insuportável certeza do vazio e do barulho que destrói as belezas da realidade. Acreditar na beleza do passarinho beijando a flor e ver aquelas pequenas asas tão rápidas remexe algo nos olhos e no peito, mas a depressão estraga tudo com intensa perversidade.

Literalmente a dor deve fluir e levar embora as cascas das feridas, o desejo de renascer sem nenhuma memória. Cada dor numa pintura abstrata, cada fragmento ali nesse enorme quadro que sangra, odeio a visão literal, odeio as imagens que geram ramificações do trauma e do barulho. 

Acabar o retalho com uma tesoura enferrujada é um desperdício de tempo, a vida é tempo, na vida a troca de cada segundo gera uma enorme dívida, cada minuto é uma oportunidade para dormir.

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