Mãe do céu e da terra: Nammu
Referências históricas utilizadas:
- Mito sumério Enki and Ninmah (criação da humanidade).
- Tradições cosmológicas da antiga Suméria.
- Estudos de Samuel Noah Kramer.
- Estudos de Thorkild Jacobsen.
- Estudos de Jeremy Black.
Esse texto procura permanecer próximo do que os registros realmente permitem afirmar sobre Nammu, sem transformá-la numa personagem fantástica nem numa abstração excessivamente mística.
Nammu
Existe algo de desconfortável em Nammu e não porque ela seja uma deusa terrível. Não é essa a realidade dela.
Também não é porque esteja cercada de monstros, batalhas ou profecias. Os textos antigos lhe concederam muito pouco disso.
O desconforto nasce de outro lugar.
Estamos acostumados a conhecer os deuses através de suas histórias, sabemos quem amaram, quem enfrentaram, quais cidades protegeram e quais reinos desejaram. Nammu escapa totalmente dessa lógica. Quanto mais se procura por ela, mais se percebe que sua importância é inversamente proporcional à quantidade de narrativas que sobreviveram ao seu respeito.
E talvez isso seja o mais interessante sobre Ela.
Os sumérios a colocaram próxima da origem de tudo. Não da origem de um povo, de uma montanha ou de uma dinastia. Da origem do próprio mundo ordenado. Ela é mencionada como a mãe que deu nascimento ao céu e à terra, uma presença ligada às águas primordiais das quais surgiram os deuses e, mais tarde, a humanidade.
Entretanto, quando os escribas começaram a registrar as grandes aventuras divinas, Nammu parece ter permanecido à margem.
Enquanto Inanna descia ao mundo dos mortos, Nammu já estava lá antes que existisse um mundo dos mortos.
Enquanto os reis erguiam muralhas e templos, Nammu pertencia a uma realidade anterior à pedra.
Enquanto os homens aprendiam a escrever seus nomes, ela já habitava aquilo que ainda não possuía nome algum.
Talvez por isso seja tão difícil transformá-la numa personagem mística fantasiosa e esotérica da moda. Certamente Ela não deseja se tornar um novo culto fast food vazio de um influercer de rede social.
Ela se parece menos com uma rainha e mais com uma condição.
Os antigos sumérios falavam das águas primordiais. Hoje a expressão pode sugerir um oceano. Mas um oceano ainda é uma coisa definida. Tem superfície, profundidade, margens. As águas de Nammu parecem pertencer a outra categoria de pensamento.
Elas representam um estado em que as distinções ainda não haviam acontecido.
Céu e terra não estavam separados.
Os deuses ainda não ocupavam seus lugares.
A humanidade ainda não havia sido moldada.
Tudo permanecia reunido numa mesma possibilidade. Quando leio os fragmentos sobre Nammu, não penso numa deusa observando o universo nascer. Penso numa ideia que os sumérios tentaram alcançar através da linguagem: a percepção de que toda forma um dia foi informe, de que toda palavra surgiu de algo que ainda não era palavra.
É uma reflexão surpreendentemente moderna para uma civilização tão antiga.
Talvez seja por isso que Nammu continue viva.
Não porque seu culto tenha sobrevivido.
Não porque milhões de pessoas ainda pronunciem seu nome.
Mas porque a pergunta que ela representa permanece aberta.
O que existia antes das primeiras divisões?
Antes do primeiro contorno?
Antes que alguém pudesse apontar para qualquer coisa e dizer: isto é céu, isto é terra, isto sou eu?
Os sumérios não deixaram uma resposta definitiva.
Deixaram um nome, esse nome é Nammu.
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