Nascimento acidental
Nem toda mulher quer ter filhos, nem todo homem abandona a criança no ventre da progenitora por desconfiança, no olhar dessa sociedade hipócrita é mérito do homem poder ir embora e sumir sem deixar qualquer palavra de sua decisão. Mulheres precisam ficar. É no útero da mulher que a criança se gera e somente a mulher pode gestar e parir, somente a fêmea mulher humana pode passar nove meses com um alienígena lhe sugando a vitalidade.
Para a mulher o espaço da submissão bíblica.
E para o homem deus senhor de tudo e todos a segurança de sua mediocridade e o legado de sua virilidade, cabe ao homem macho fecundar e multiplicar neste mundo de loucura e soberba, cabe aos grandiosos homens o poder de matar mulheres e crianças ao seu bel prazer, o homem é o conquistador nato da sua imundície e da sua soberana vontade de ser livre para sumir nesse mundo e submeter novas mulheres e crianças ao seu pervertido senso de religiosidade.
Na sociedade os anos passam e passam e passam e os senhores da Divina Virilidade continuam plantando essas sementes de guerras e doenças do eu-superior para as gerações, ao animal-homem sempre cabe essa segurança nos seus atos infantis e torpes, para as mulheres cabe o casamento e a ignorância do que é igualdade de direitos num mundo que gerou machos soberanos e fêmeas fragilizadas pela insegurança de viver enquanto sobrevive aos desígnios da violência dessa raça.
Nascer mulher é sentir a síntese de toda desigualdade no corpo, na carne, no útero.
Vivemos numa era de deturpações e mentiras que geram ecos da desigualdade e a vida humana não passa de ciclos e gerações de informações e dados que se multiplicam numa sinfonia de aves de rapina, urubus, animais peçonhentos e metamorfos numa casca humana máscula e patética, ser patético gera atenção, os rastros da imbecilidade humana se alastram como as larvas numa fossa entupida de detritos e sujidades, nascer menina é a pior realidade.
Até mesmo para aquelas mulheres que não desejam parir existe a forma abjeta de pressionar, enquanto também lhe repassam remédios para atrofiar enquanto os machos não podem sofrer dano algum, mulheres devem engolir anticoncepcionais e receber no próprio corpo as reações, a vida da mulher que gesta é receber desde o nascimento a sua sentença.
(...)
Que forte e necessário! Esses papéis que o patriarcado e a igreja implantaram há tanto tempo continuam vivos pela colonialidade de gênero. Nem mulheres nem homens são felizes nesse modelo, mas sem dúvidas as mulheres que geram ou não, são as mais afetadas, nem ao menos têm os controles de seus próprios corpos.
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