Todos os Traumas
Sobreviver não é viver.
Nem tudo é como parece ser, nem tudo é bonito e gera satisfação, muitos segredos permanecem num cofre que enferruja no fundo do rio. Os olhos também sabem mentir, esse silêncio que gera dor, nem tudo é resquício de sabedoria. Só o silêncio de um trauma antigo, a garganta inflamada pelos anos, os dentes que amarelaram no esquecimento.
Prêmios da dor são certificados que ela não faz crescer com lições, a dor só gera dor. Essa ferida não se cura com paliativos na farmácia, os transtornos, os enganos, essa raiva que cresce com as horas, não é só mágoa e pus, nunca foi um machucado leve.
(...)
Quase todo dia penso na loucura.
Quase todo dia penso se é loucura.
As frases rasgam as folhas do pensamento, ou os pensamentos que se rasgam como se fossem folhas de papel. Quase nada disso é sobre a sanidade, nada disso é sobre o objetivo de adquirir um pouco de lucidez ao final dos dias. Muito disso esteve rasgado numa garganta que não ousou gritar, o grito permaneceu emudecido, a dor se alastra pelos órgãos e pelas células.
Quase todo dia as costuras no papel se cortam já puidas pelo tempo e pela falta de cuidado no ambiente, o apoio e a compaixão não preserva e nem restaura, nada se regenera num livro que nunca recebeu qualquer delicadeza.
Quase todo dia o mundo é destruído.
Quase todo dia alguém se joga de um abísmo, quase sempre o trauma era o motivo.
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