O subsolo de desejos
Existia uma vontade e ela crescia nas pernas e dentro da terra, crescia dos pés e ia até a cabeça numa coroa de flores e espinhos venenosos.
Havia um local e um buraco bem no meio dessa pequena passagem, um tronco enorme servia de ponte para se chegar ao outro lado, lá no fundo vários troncos de umas árvores cobertas por espinhos gigantes. Um menino passou correndo e disse:
— Venham, é muito seguro!
Outras duas crianças disputavam para ser a próxima que passaria pelo tronco, uma aventura e tanto para crianças que gostam de brincar onde existe uma chance de diversão. A menina correu, e o outro menino correu também e a empurrou para conseguir chegar na frente, a menina caiu e não conseguiu se segurar no tronco com suas pequenas mãos e bracinhos magrelos. Ela caiu de forma certeira naquele amontoado de troncos cheios de espinhos.
Ela gritou por ajuda:
— Aí, ai, ai, dói muito, alguém me ajuda, aí, aí, aí...
Os meninos sumiram e ela ficou ali sentindo os espinhos cravarem se cada vez que se movia em sua carne, ficou completamente machucada, e com o corpo todo cheio de espinhos enormes. Saiu dali nem sabia como, mas, conseguiu se arrastar para fora daquele lugar terrível.
Sentindo muita dor e chorando muito, a pequena menina chegou em uma casinha de madeira, pedindo socorro erguendo os bracinhos e o seu pai em estado de assombro correu para tentar remover aqueles espinhos gigantes.
— Minha filha, meu Deus, o que lhe aconteceu? Maria, Maria, corra aqui e me ajude a remover todos esses espinhos da nossa filha, traga algo para cortar.
Ela trouxe uma pequena faca e ele conseguiu cortar vários, todavia, era mais sábio remover sem cortar, eu criança que era não tive a genial ideia de falar para aqueles dois adultos que estava piorando a situação cortar os espinhos.
Essa lembrança nunca se apagou por completo, lembro de como era cada espinho que entrava na pele, lembro da raiva, lembro do pedido de ajuda de amigos que fugiram sem olhar para trás, crianças também podem ser cruéis.
O desejo que mantive ao longo desses anos é uma ferramenta da intenção, esse desejo se nutre dessa dor, esse desejo se preenche com as minhas lágrimas infantis e com toda a ingenuidade que cada trauma levou ao longo desses anos. O subsolo dos desejos não esquece, não existe benevolência ou sentimentos de perdão para aqueles seres que empurram uma criança no abismo e lhe deixar cair numa imensidão de espinhos. O subsolo mantém cada lembrança mesmo que a criança tenha esquecido todas as pequenas memórias, o subsolo não esquece.
O que precisa ser dito:
— O subsolo nunca esquece.
(...)
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